“Eu já expliquei três vezes!”: quando a dificuldade de atenção pode estar no processamento auditivo

Você fala.

Seu filho olha.

Parece que entendeu.

Mas alguns minutos depois, ele pergunta novamente o que precisa fazer.

Na escola, a professora também percebe.

Ele se distrai durante as explicações, demora para começar as atividades ou parece simplesmente “desligar” quando recebe uma instrução mais longa.

E, aos poucos, começam a aparecer frases como:

“Ele não presta atenção.”

“Ele é muito distraído.”

“Ele precisa se esforçar mais.”

Mas será que é realmente falta de atenção?

Nem sempre o problema está na atenção

Quando pensamos em uma criança que não consegue acompanhar uma explicação, é comum imaginar imediatamente que ela está distraída.

Só que existe uma etapa anterior à atenção: a informação precisa ser ouvida e processada pelo cérebro.

Imagine uma professora dizendo:

“Abra o livro na página 42, faça o exercício 3 e depois copie as palavras no caderno.”

Para algumas crianças, essa sequência é facilmente compreendida e armazenada.

Para outras, a informação pode se perder no meio do caminho.

Ela pode lembrar apenas da primeira instrução.

Ou entender uma parte e esquecer outra.

Ou ainda precisar observar o que os colegas estão fazendo para descobrir qual é a atividade.

Isso pode parecer desatenção.

Mas pode existir uma dificuldade no processamento da informação auditiva.

“Mas ele ouve normalmente”

Essa é uma das maiores dúvidas dos pais.

A criança faz exames auditivos, os resultados estão normais e, por isso, parece não haver nenhuma explicação para as dificuldades.

Mas existe uma diferença importante entre ouvir um som e processar aquilo que foi ouvido.

O ouvido capta a informação sonora.

O cérebro precisa organizar essa informação, identificar os sons, separar o que é importante do que é ruído e interpretar aquilo que está sendo dito.

É por isso que uma criança pode ter uma audição dentro da normalidade e, ainda assim, apresentar dificuldades em situações que exigem maior processamento auditivo.

O barulho da sala pode revelar a dificuldade

Um dos momentos em que isso pode ficar mais evidente é dentro da escola.

Uma sala de aula nunca está completamente silenciosa.

Existem conversas, cadeiras arrastando, páginas virando, crianças entrando e saindo.

Mesmo assim, a criança precisa conseguir direcionar a atenção para a voz da professora.

Quando existe dificuldade para realizar essa seleção, acompanhar uma explicação em um ambiente barulhento pode exigir muito mais esforço.

E isso pode deixar a criança cansada, frustrada ou aparentemente desinteressada.

Alguns sinais merecem atenção

Nenhum desses comportamentos, sozinho, significa que exista uma alteração no processamento auditivo.

Mas, quando aparecem com frequência, podem ser importantes para uma investigação.

Observe se a criança:

  • pede para repetir instruções constantemente;
  • tem dificuldade para seguir comandos com várias etapas;
  • entende melhor quando você fala olhando diretamente para ela;
  • apresenta mais dificuldade em ambientes barulhentos;
  • troca ou confunde palavras parecidas;
  • esquece rapidamente informações que acabou de ouvir;
  • precisa observar outras crianças para saber o que deve fazer;
  • demonstra muito esforço para acompanhar explicações orais.

A questão não é rotular a criança.

É entender por que determinada situação está sendo tão difícil para ela.

E quando existe uma alteração?

O primeiro passo é realizar uma avaliação adequada do Processamento Auditivo Central.

Ela permite investigar diferentes habilidades relacionadas à forma como o cérebro recebe e organiza as informações sonoras.

A partir dos resultados, é possível identificar quais habilidades apresentam dificuldade e qual caminho pode ser indicado.

Quando há indicação de treinamento auditivo, o trabalho deixa de ser baseado em uma tentativa genérica de “melhorar a atenção”.

O objetivo passa a ser trabalhar especificamente as habilidades que precisam ser desenvolvidas.

O treinamento auditivo não é reforço escolar

Essa diferença é importante.

O treinamento auditivo não tem como objetivo ensinar novamente o conteúdo que a criança aprendeu na escola.

Ele trabalha o processamento das informações sonoras.

No PTAPLENO, por exemplo, o treinamento é personalizado de acordo com os resultados da avaliação, trabalhando progressivamente as habilidades identificadas como alteradas.

Isso significa que duas crianças com queixas parecidas podem receber planos diferentes.

Porque a queixa pode ser parecida, mas a dificuldade por trás dela não necessariamente é a mesma.

Talvez seu filho não esteja “não prestando atenção”

Talvez ele esteja tentando.

Tentando acompanhar.

Tentando lembrar.

Tentando entender.

Tentando descobrir o que a professora acabou de falar enquanto todos os outros sons acontecem ao mesmo tempo.

Antes de concluir que uma criança é distraída, desinteressada ou preguiçosa, vale investigar se existe alguma habilidade por trás daquele comportamento que precisa de atenção.

Porque quando entendemos a origem da dificuldade, conseguimos escolher um caminho muito mais adequado para ajudar.

Ouvir é apenas o começo. O cérebro precisa transformar o som em informação.

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